INVASÕES
Nova Estrutural surge no Paranoá
Nos últimos quatro dias, 3.500
pessoas invadiram uma área particular. É a quarta ocupação irregular em
menos de três meses. No total, 8 mil invasores estão acampados em três
lugares diferentes nas imediações da cidade
Dante
Accioly
Fabíola Góis
Da equipe do Correio
Pelo
menos oito mil pessoas vivem na ilegalidade perto do Paranoá. Amparadas por políticos
e orientadas por líderes comunitários, elas invadem áreas públicas, derrubam
árvores em zonas de reflorestamento e ocupam terrenos particulares. Nos últimos
quatro dias, 3,5 mil pessoas invadiram o Condomínio Del Lago. É a quarta invasão
em dois meses. Outras duas áreas invadidas nas proximidades abrigam 4,5 mil
pessoas.
O juiz plantonista do Tribunal de Justiça do Distrito Federal, Caio
Sendongi, determinou a retirada dos invasores na noite de sábado. Um oficial de
justiça esteve no local para cumprir o mandado na manhã de ontem. Isso não
foi feito porque ele teve o apoio de apenas 30 policiais militares. Os invasores
comemoraram e não arredaram pé do acampamento.
Descumprir liminares não é novidade para os invasores comandados
pelo líder Pedro Maravalha — mais conhecido como Pedro Barbudo (veja quadro).
Os invasores no Paranoá escrevem a mesma história das famílias que forjaram a
Favela Estrutural. Há dez anos, a ocupação crescia a uma taxa de 100 barracos
por dia. Hoje são mais de 20 mil pessoas. A Estrutural é um lugar onde a polícia
não faz rondas regulares, onde o carro-pipa passa dia sim dia não e onde o
caminhão do lixo não entra em cinco das 17 quadras.
No final da tarde de ontem, um helicóptero da PM sobrevoou a área
três vezes. Pedro Barbudo estava longe dos barracos. Almoçava com três
auxiliares em um restaurante na quadra 17 do Paranoá. Voltou à invasão com ar
apreensivo. ‘‘A polícia já está monitorando o acampamento. Deve tentar
entrar por aqui amanhã (hoje)’’.
Reforços
O comandante do 13º Batalhão da Polícia Militar,
tenente-coronel João Carlos da Silva, estima que serão necessários pelo menos
400 homens para acompanhar a retirada. Devem participar da operação policiais
da cavalaria e da Companhia Florestal.
Um dos seguidores fiéis de Barbudo é o cozinheiro desempregado
Pedro Aristides dos Santos, de 35 anos. Depois que o Sistema Integrado de Vigilância
do Solo (Siv-Solo) desocupou a Floresta dos Pinheiros, ele perambula pelas invasões
comandadas pelo líder. ‘‘Tem 20 dias que vivo dentro do mato. Já estou
enfadado de tanto ficar de um lado para o outro’’, disse. Desde a última
sexta-feira — quando as 3,5 mil pessoas invadiram o Condomínio Del Lago —,
Pedro Aristides mora num barraco coberto com plástico.
A nova investida de Pedro Barbudo é uma resposta à ordem judicial
que bloqueou a criação da Expansão do Paranoá, uma área de 140 hectares
destinada à moradia de dez mil pessoas. A Expansão é a bandeira que Pedro
Barbudo empunha há dez anos para atrair novos seguidores. A Justiça entendeu
que o empreendimento pode provocar danos ambientais. Foi a senha para Barbudo
liderar novas invasões.
Enquanto os invasores descumprem a lei, os donos do Condomínio Del
Lago ficam no prejuízo. O comerciante José Ribeiro, que comprou um lote de 746
m² por R$ 7.500 em 1993, está indignado. Ele e outros 500 compradores
adquiriram lotes da antiga Fazenda Paranoá, que pertencia ao espólio de
Sebastião de Souza e Silva.
Segundo José Ribeiro, o processo de regularização do Condomínio
Del Lago está prestes a sair. ‘‘A Secretaria de Assuntos Fundiários
publicou editais solicitando documentos para a regularização’’, ressalta.
Colaboraram:
Tarciano Ricarto e Sheila Messerschmidt
Perfil
Um líder com casa própria
Tarciano
Ricarto
Da equipe do Correio
Com o nome de batismo,
o maranhense Pedro Maravalha, 44 anos, é somente um desconhecido. Mas, como
Pedro Barbudo, é personalidade de destaque quando o assunto é invasão de
terras no Distrito Federal.
Nos últimos dois meses, ele coordenou quatro invasões nas imediações
do Paranoá — onde mora e tem casa própria. ‘‘Não existe negociação
para nos tirar daqui’’, desafia. Longe do idealismo, as razões que levam
Barbudo a defender os sem-teto se explicam no seu próprio emprego. Ele é
assessor parlamentar do deputado distrital José Edmar (PMDB) há seis anos.
José Edmar — um dos maiores incentivadores da invasão da
Estrutural, transformada em uma favela com 3.500 casas e graves problemas
sociais e ambientais — mantém uma organizada rede de pessoas que comandam
invasões no DF. Ele conheceu Barbudo quando este tinha uma churrascaria.
Por trás da amizade escondem-se interesses políticos. As invasões
viraram palanque eleitoral. Conseguir a fixação de centenas de invasores numa
área é garantia de votos na próxima eleição. Embora ligado ao mundo do
poder, Barbudo nega qualquer pretensão de candidatura. ‘‘Nunca pensei
nisso. Prefiro ser amigo do rei do que ser o rei’’, desconversa.
Barbudo mora no Paranoá há 34 anos. Chegou do Maranhão para
trabalhar como jardineiro. Era mexendo com a terra que tirava seu ganha-pão. E
é mexendo com ela que pretende ganhar muito mais.
Em suas investidas para ocupar terras, ele alega estar cobrando
promessas feitas pelo governador Joaquim Roriz durante a última campanha.
‘‘Ele prometeu um monte de coisa. Só quero que ele realize para a gente o
sonho da moradia’’, diz ele.
Pagos
para invadir
Samanta
Sallum
Da equipe do Correio
O berço das maiores
invasões de área pública do DF fica no gabinete 24 da Câmara Legislativa,
ocupado pelo deputado distrital José Edmar (PMDB). Sem constrangimento, ele
confirma que mantém oito funcionários, pagos com dinheiro público para
organizar os movimentos de ocupação.
Pedro Barbudo é um deles. Recebe salário de cerca de R$ 1.800.
Outro assessor parlamentar de Edmar é o presidente do movimento dos inquilinos
do Distrito Federal, Gerardo José Pereira, que ganha cerca de R$ 3.500.
‘‘Temos que fazer pressão para que o governo atenda às
reivindicações dessas pessoas’’, prega José Edmar, que é aliado do
governador Joaquim Roriz e preside a Comissão de Assuntos Fundiários da Câmara
Legislativa.
E Edmar prevê mais invasões. ‘‘O negócio em Ceilândia vai
estourar’’, prevê. O gabinete do deputado é o recordista em visitas na Câmara
Legislativa. Ano passado passaram pelo gabinete 10 mil pessoas. A maioria vai lá
pedir lote.
ENTENDA
O CASO
Sob a liderança de
Pedro Barbudo, invasores já ocuparam quatro áreas diferentes em dois meses e
meio. Cerca de 8 mil invasores permanecem em três locais.
ÁREAS INVADIDAS
Condomínio
del Lago
·
De sexta-feira para cá, 3,5 mil pessoas invadiram
a área, particular, que tem 150 hectares. Conforme os invasores, eles não
conseguiram demarcar seus lotes na Fazenda Paranoazinho, área da União
invadida dia 21 de setembro, e por isso, entraram na nova área.
·
Uma liminar para desocupar o condomínio foi
obtida sábado. Um oficial de Justiça tentou cumprir a decisão ontem, mas
obteve apoio de apenas 15 policiais. Ele decidiu suspender a desocupação por
falta de aparato policial.
Condomínio
Itapuã II
·
Invasão começou em 13 de julho e abriga 3,5 mil
pessoas. Parte da área é da União (250 mil m²) e parte é particular (160
mil m²), onde funcionava o Haras BS. Fica na DF-001, pista que liga o Paranoá
a Sobradinho.
·
No dia 17 de agosto, oficiais de Justiça
iniciaram a desocupação da área particular. No mesmo dia, o governador
Joaquim Roriz foi ao local e criticou a ordem judicial. Os invasores remontaram
os barracos. O advogado dos donos da área exige na Justiça que o GDF
providencie a desocupação, interrompida por falta de apoio policial.
·
No dia 18 de agosto, o juiz Rodrigo Navarro, da 2ªVara
Federal, ordenou a remoção dos invasores da área pertencente à União. A
ordem não foi cumprida por falta de um plano de desocupação.
Fazenda
Paranoazinho
·
A área pertence à União, tem 50 mil m² e foi
ocupada dia 21 de setembro por cerca de mil pessoas, que permanecem no local. A
gerência de patrimônio da União requisita a área, cedida para a Polícia
Federal, para que a reintegração de posse seja providenciada na Justiça
Floresta
dos Pinheiros
·
No dia 15 de setembro, um grupo de mil pessoas
ocupou uma área de 30 hectares da floresta de pinheiros, destinada à Expansão
do Paranoá. Em abril, a mesma área já havia sido invadida. No dia 19, a Justiça
concedeu liminar ao Ministério Público barrando o projeto da Expansão, sob o
argumento de risco ambiental.
·
Os invasores foram deixando a área aos poucos e
ocupando as demais áreas (Fazenda Paranoazinho e Condomínio Del Lago). Na
quarta-feira passada, o Siv-solo retirou os últimos invasores, cerca de 50
pessoas.